Um português para chamar de meu

Terminei ontem a leitura de “O teu rosto será o último”, romance de João Ricardo, autor da nova literatura portuguesa, mas não é desta nem de outras obras de lá que quero falar. Ontem também encerrou-se mais um ano letivo, mais um capítulo na busca incansável de construir o futuro através da língua portuguesa e as leituras de mundo; despedidas, um choro reprimido, sem nenhum afago de aluno ou mensagem positiva para que pudessem sopesar o que se passou. E com as notas fechadas e o conteúdo vencido, pouquíssimos se deram ao trabalho de conectar-se na chamada de vídeo, e os que entraram pouco interagiram e recebi apenas o sorriso dos mais novos. Também não quero falar da pandemia e suas agruras profissionais e sociais, isso estraga qualquer texto, principalmente se essa tecla óbvia for repetida com todos os seus clichês logo no primeiro parágrafo. Cometi esse erro, mas me comprometo a não tocar no assunto no próximo.

Na Semana passada notei que os quatro últimos autores que li são portugueses: Inês Pedrosa, José Saramago, Sophia de Mello Breyner Andersen e João Ricardo Pedro. Coincidência? Obviamente não. Desde meados de 2018 me pus a explorar o que de belo e pitoresco há do outro lado do atlântico, a pátria irmã, e por vezes indigesta que nos legou o sabor e o encanto da língua com a qual redijo estas linhas. Não foi à toa que nos últimos três anos resgatei uma literatura que até então me soava estranha. Não me refiro aos clássicos portugueses: Alexandre Herculano, Bocage, Eça de Queiróz.(Não falo de Fernando Pessoa, pois está além de qualquer coisa, magnânimo e atemporal, gênio) Falo de uma literatura nova, produzida a partir dos anos 1990 e que tem suas raízes nos últimos anos da Guerra Ultramarina e e na semente da Revolução dos Cravos. Lembro-me que tal interesse e impulsão foram mais fortes quando, por acaso, encontrei no sebo um livro de José Luís Peixoto, Livro. Isso mesmo, o título é homônimo ao próprio substantivo: Livro foi um daquelas obras que me resgatou de um marasmo literário, uma leitura que possibilitou enxergar novos rumos de leitura e estudos literários. Uma narrativa ímpar e refinada ao extremo mesmo que os temas e os personagens não possuam a mesma fineza. A partir de então, como funciona com qualquer apaixonadao, me pus a vasculhar a obra inteira deste autor. Galveias, Cemitério de Pianos, Morreste-me, Nenhum olhar, Em teu ventre, Autobiografia, A criança em ruínas. Todos maravilhosos, mas nenhum me trouxe o mesmo rumor que encontrei ao ler Livro. É sempre assim, amamos alguém na tentativa de encontrar a mesma atmosfera e impulsos orgânicos do nosso primeiro amor de infância (ou adolescência?). E me consolei buscando outros autores que pudessem oferecer, talvez, na primeira leitura àquela sensação indescritível de choque, excitação, incredulidade, confusão e nos dias subsequentes, a ressaca mental e literária de uma obra trágica e bela. Foi assim com Jorge Reis-Sá, Filipa Melo, Gonçalo Tavares, Rui Zink, os luso-africanos: Mia Couto, Walter Hugo Mãe, José Eduardo Agualusa, e sem me esquecer do polêmico Miguel de Sousa Tavares.

Incontestável autor e indigesto comentarista, Miguel de Sousa Tavares ofereceu-me aos menos três obras maravilhosas, e não é à toa, sendo filho da celebre e esplêndida Sophia de Mello, o filho ao menos nas letras se saiu bem. A imersão que fiz para o lado de lá do atlântico, não se deu apenas na literatura, mas também ao cinema, ao futebol e ao fado: de Amália Rodrigues à Carminho, de Eusébio à Jorge de Jesus, de Manoel de Oliveira à Amadeu de Souza Cardoso. A leitura de Miguel de Sousa Tavares me trouxe a seguinte e pertinente reflexão: por que a curiosidade e o apego a uma pátria cujo histórico é de violência e opressão sobre parte de dois continentes? Não faz sentido mesmo. E talvez por isso não fui tão a fundo, com um receio e uma certa de vergonha de idolatrar a história e a cultura de quem mais nos subjugou, e não falo apenas de violência física e política, mas também linguística.

No ano passado a chegada do português Jorge de Jesus e a estrondosa e colossal campanha com o meu time, me impulsionou ainda mais neste resgate e imersão na cultura de lá. Fiz questão de voltar aos clássicos que ignorei na faculdade, a literatura que tanto ensinava e pouco me estimava: das cantigas medievais a Fernando Pessoa. Em 2019 li tudo o que era português em uma espécie de gratidão e acerto de contas com o técnico que me deu uma das maiores alegrias enquanto torcedor: a taça libertadores.

No começo da pandemia, Jorge Jesus se foi, assediado pelo Benfica, decidiu largar não só o Flamengo, mas se esquivar de possíveis polêmicas, affairs e o caos que se iniciava com a pandemia. Não serei frio ao dizer que não doeu. Doeu. Ainda dói e talvez por tal foi que li muito menos autores portugueses nesse ano. Não sei foi mágoa, vazio ou aquela sensação de marido traído. Por uns meses aquilo que remetia a Portugal me machucava. Logo superei e me pus a novas leituras e autores, afinal, Jorge Jesus nunca me deveu nada e eu tão pouco a ele. A adoração pelo técnico português talvez tenha me cegado entre 2019–2020, colocando toda a minha atenção no resultado futebolístico. Assim como Miguel de Sousa Tavares, aprendi que é preciso separar obra e autor, o elogio para aquilo que genuinamente é bom e a crítica contida àquilo que é nocivo em sociedade. Na semana passada, após a interrupção do jogo entre Paris Saint-Germain e Istanbul Basaksehir e todo o desenrolar das ofensas raciais, Jorge Jesus foi a imprensa dizer que o racismo “está na moda”. Foi o suficiente para somar a mágoa do abandono à repulsa. É confortável assumir tal declaração quando se nasceu em um país que até pouco atrás manteve colônias na costa da África e que só houve a independência depois de muito derramamento de sangue.

Isso tudo aconteceu na quarta e na quinta terminei a leitura de “O teu rosto será o último”. Com os pés no chão, não penso em evitar a literatura portuguesa, mas vou selecionar bem os autores daqui para frente. Se nenhum me agradar, ou nenhum fado ou um novo técnico português, vou ficar com aquilo made in Portugal que me é mais imprescindível, encantador orgânico e excitante: a língua.

Apenas um embaralhado de tédio e memórias embaçadas, que entre uma mágoa e um gol de empate, encontra a si mesmo — Professor de literatura e ciclista

Apenas um embaralhado de tédio e memórias embaçadas, que entre uma mágoa e um gol de empate, encontra a si mesmo — Professor de literatura e ciclista