Saiu para a rua respirando a umidade de um fim de tarde em que a chuva ainda escurecia a paisagem. Nenhuma gota vertia do céu, nem uma brisa fria para indicar mais uma nuvem negra sobre o bairro de sua infância. Nos primeiros passos fora da calçada, sentiu-se vigoroso e jovem por viver mais que Ian Curtis, mesmo tendo completado vinte e sete anos no mês passado.

Com o cachorro atado a uma coleira puída e sem muita segurança, deslizou por ruas que agora reluziam um ar novíssimo, reformas e investimentos duradouros, metamorfoseando quase tudo que podia remeter aos dias que andava por ali de bicicleta com um violão nas costas. Há um silêncio comum dos feriados, o sossego das janelas fechadas e dos quintais vazios e um sono de ressaca acalentado em meio a isso. Os passos se arrastam e a presença do cachorro naquelas ruas rompe com a paz até então intensa. Seus camaradas de espécie se aprontam ofegantes frente aos portões, oferecendo latidos e provocações a seus modos. Alguns vizinhos, nem sempre donos das feras, davam as caras entre uma brecha da cortina. Nada a temer, apenas uma cena comum de um dia vadio.

Apesar do afastamento de anos, aquela rua ainda lhe era familiar. Foi ali que sua banda decidiu pôr um fim, embora a conversa sobre o desfecho tenha sido longe ali, no silêncio virtual de cada um em frente a um computador moderno.

O alvoroço seguia por esquinas adiante, nada calaria aquela farra canina no dialeto padrão daquelas ruas. Seu cão prosseguia calmo na caminhada rumo a casa do padrinho, algumas ruas adiante, mas nem tanto. Temia que algum vira-lata extrapolasse os limites da consideração bairrista e avançasse com certa fúria, destilando o protesto pela liberdade que nem todo cão tinha àquelas horas. Caminhou tranquilo e atento as reações da espécie. Nenhum cachorro solto e nem indicio de portões abertos. Quando dobrou uma esquina, entrando por uma rua deserta, aliviou-se por não serem recebido diante de tantos latidos. As poucas casas e os terrenos baldios indiciavam a ausência de cães. Pela primeira vez respirou aliviado e seguiu. O pai pediu que buscasse um formão chandrado em aço na casa do padrinho e tio, ferramenta para talhar a madeira da porta que pretendia instalar na cozinha. O padrinho dissera que comprara um kit novo, o aço cortante até rasgava a pele de um porco se topar, cumpade, assim disse ao telefone.

A música dos fones foram invadida por um rosnar distante, as vibrações sonoras vindas de uma mandíbula sedenta com arcada alinhada logo pareceram próxima, e ao girar o pescoço viu aquele pitbull mestiço pular o cercado e avançar sem freio sobre seu cão.

“Saaaaaai”! só teve tempo de esganir esse grito e oferecer um chute certeiro entre o peito e o pescoço do bicho, e vê-lo sair um tanto acuado mas ainda persistente. “Vaza daqui, caralho!”

O cão estranhamente se acalmou pelo grito e voltou ao terreno que pertencia. Olhou seu cão e percebeu que continuava calmo diante da cena, como se o ataque de seu camarada não houvesse incomodado. Afagou seu crânio peludo tranquilizando-o, e seguiu rua abaixo

“Ô filho da puta, tá pensando o quê?”

Sem antes colocar os fones, alguém gritava há metros, num protesto esclarecido sobre o chute no cão

“Quem tu pensa que é pra fazer isso com meu cachorro, ô bostão?”

“Cara, ele ia avançar no meu”

“Deixasse eles, são animal, se entendem”

“Ele é um labrador, não é agressivo”

“Teu cachorro é um mariquinha, isso sim! Cachorro é pra brigar, são animais”

O homem ostentava músculos salientes em contraste com uma barriga flácida, quase que lustrada em uma pele morena sem camisa.

Conhecia bem aquele olhar e aquele rosto, mas certamente não havia reciprocidade nesse gesto de reconhecimento. Os anos passaram e só crescera, tanto em corpo quanto hormônios, e agora escondido sobre uma barba negra e espessa, já não se parecia com o menino magro que fora espancado junto a seus companheiros de banda naquela mesma rua há doze anos atrás.

“Tu nem aparece mas por aqui seu viado, some, arrasta o pé antes que eu solte o Ninja em ti”

Não viu o sujeito retornar pelo quintal repleto de árvores frondosas, quase que apagadas pelo imensa sombra do muro vizinho.

Era dois mil e seis quando passaram ali, ele, Jean e Ronaldo, uma banda de garagem com a vida contadas até a vida adulta se sobrepor por aquela brincadeira amplificada e distorcida com as mesadas de cada um. Voltavam de um ensaio na casa do tio de Jean, que viajou naquela tarde e deixou um rancho de ferramentas para o sobrinhos e os amigos “brincarem de banda”. Alguns meses de ensaio renderam a oportunidade de tocar em uma festa beneficente com outras bandas dali alguns dias. Ensaiaram com afinco todos os dias e fechavam aquela tarde com a certeza que conseguiriam sintonizar bem no palco diante de diversos olhares loucos e também críticos. Talvez fosse o princípio de um sonho juvenil se desenhando ou um sonho juvenil começando a ter sua vida útil, ou fosse só o começo do fim de nossas vidas. Voltaram para casa iluminados por diversas recompensas, egos inflados e a juventude transbordando.

“Ô seus cabeludos é o seguinte” um homem invadia a rua, rompendo a escuridão com o reflexo de uma garrafa de conhaque “acabei de levar um fora da minha mina, meus parças e eu estamos num veneno. Pera pera pera, não precisam ter medo, mostra pra gente esse roquenrou aí, dá esse violão aí pra gente fazer uma serenata”

Os três negaram, mesmo no silêncio de seus gestos acuados, mesmo não havendo violão, apenas um baixo e uma guitarra e um jogo de pratos

“Como é, vão ficar de viadagem aí encarando a gente. Como é que é? Vocês são cabeludos mas não são mulher, não vamos comer o cu de vocês, pelo menos não hoje”

E num lapso de fúrias diversos punhos os cercaram, golpeando tudo que fosse possível de seus rostos e crânios, boca do estômago e partes intimas. Alguns golpes de ferro e madeira, de alguma ferramenta ou objeto oferecido naquela hora.

“Isso é pra aprender não ser tão escrotos seus merdinhas, ninguém se paga de artista no meu beco. Da próxima vâmu cortar o cabelo de bicha de vocês”

Uma voz ao fundo acalmava dizendo que chegava dali e a mesma voz que ameaçava replicava “Precisava descontar em alguém, a Janaína terminou comigo”

A carnificina durou apenas alguns minutos, até um carro iluminar a rua e espantar aquele alvoroço. Os inchaços e sangramentos eram evidentes, o que fora difícil de disfarçar por alguns dias.

“Obrigado, padrinho. Depois o pai te devolve”

“Tu não quer um café?”

“Não, agradeço, mas logo vai chover e eu tô com o Klaus”

Voltou pelo mesmo caminho, agora absorto numa série de pensamentos que por anos demorou a ter. Pensou novamente em Jean, de seu comportamento estúpido e recente nas redes sociais, distribuindo ódio e apoio a seu candidato a presidente e evitando o amigo em qualquer tipo de discussão pacífica possível. Ronaldo havia entrado para igreja havia poucos meses, se casando com uma amiga da família por questão de interesse. Agora pensando no evento daquele dia nessa mesma rua, é que chega a conclusão do quão nocivo fora aquilo para as suas vidas. Jean abandonou a banda um dia antes do show, Ronaldo aguentou enquanto pode, mas sempre se retraindo diante de qualquer apresentação pública, e tempos depois desferindo ódio aos simpatizantes do gênero musical. Depois daquele verão nunca mais conseguiu desenvolver laços afetivos como antes. Tornara-se um jovem retraído e estúpido, evitando por muito permanecer em meio a roda de conversas. Nunca antes pode pensar que aquela surra tivesse rumado sua vida de tal maneira.

Voltava pela mesma rua, mesmo que tivesse sido estupidamente expulso pelo dono do pitbull mestiço, o mesmo jovem que a época espancou num ato de brincadeira ele e seus amigos. Pensou em respeitar a ordem, evitar conflitos já na vida adulta, mas decidiu passar, mesmo que esquivo e calmo por aquela rota

“Então esse merdinha voltou com o cachorrinho marica dele”

Agora tinha parte da família e algumas moças como plateia

“Ele não é cachorro de briga”

“Oh gente, ele não é de briga. É do que? De brincar de boneca?

Uma gargalhada explodia. O projeto de humilhação estava dando certo por ora

“Coé, não vai enfrentar ou vamos ter que resolver nós dois ô frutinha? Pensa que não te reconheci com essa barbinha de boiola aí?”

A risada coletiva persistia em uníssono na noite deserta e quente, como motor de impulso para qualquer reação violenta.

“Então vem”

“Tira o pau da boca pra falar!

“Vem! Solta tua cadelinha prenha, vamos ver se esse pitbull sabe outra coisa além de esfregar o cu no portão”

“O que tu falou do meu cachorro? Ninja, pega esse cão de marica”

E nisso o olhar fervente do cão galgou os poucos metros até se lançar raivoso a sua frente, porque na hora, apenas pode se lançar à frente de Klaus, gritar “corre Klaus” e penetrar o formão com ódio na carne tensa e peluda de Ninja, sentindo os uivos amaciarem a dor e repetir o golpe outras vezes, até conferir a distância que Klaus tinha sumido, até perceber os diversos olhares vingativos da plateia e a iminência de outra surra na mesma rua, mas resguardando a certeza de vingar todas as letras de Ian Curtis que nunca pode tocar.

Apenas um embaralhado de tédio e memórias embaçadas, que entre uma mágoa e um gol de empate, encontra a si mesmo — Professor de literatura e ciclista

Apenas um embaralhado de tédio e memórias embaçadas, que entre uma mágoa e um gol de empate, encontra a si mesmo — Professor de literatura e ciclista