Há uma fina camada d’água sobre as tábuas da ponte que atravessa o pequeno córrego. Parece escorregadio e incerto a passagem, mas mesmo assim arrisco e lentamente vou cruzando a passos lentos. Cada passada é movida por um receio de que no próximo pé cairei, por puro descuido e segurança de não ter caído até então. Chego ileso as trilhas que cortam o bosque de Portugal, que além de úmido encontra-se vazio. É domingo, e para acelerar a digestão do almoço pesado (arroz integral, batata frita, bife de soja e um pouco de cerveja) decidi calçar os tênis e caminhar até o Jardim Social, numa tentativa de minimizar o marasmo do domingo e continuar com a rotina de corrida e caminhadas.

São seis quilômetros até lá, uns dois ou três bairros no meio de tudo, Alto da Xv, Hugo Lange e Juvevê, se não me falha o senso geográfico de um recém chegado em Curitiba, habituado apenas as ruas do centro. As ruas estão vazias, apenas no alto da Xv há um movimento relativo de carros. Até o Mc Donalds se encontra ás moscas, e apesar de ser duas da tarde, a perspectiva é de que seja assim até o fim do dia. O céu acinzentando ainda carrega o mesmo ar chuvoso da manhã. Pela Itupava há um rumor maior de gente alegre nos bares, mas o clima sugere um fim de festa, um almoço encerrado, o último sorriso se desfazendo diante da aceitação do fim. Para alguns mais amargurados a segunda feira já começa ali, na despedida, no último chope, na sobremesa ou no cafezinho da tarde. Mais adiante, em algumas casas de fina arquitetura em torno do que imagino ser Hugo Lange, famílias se amontoam em frente de um televisor imenso, também tentando consumir os últimos instantes de conforto e despreocupação desse dia. Penso que para algumas pessoas esses dias devem ser um carnaval sem fim, um aperitivo das férias ou um retiro intenso, e a segunda feira carrega todo dissabor possível da humanidade, assim como o gosto amargo de alguns medicamentos necessários ao tratamento, que se pudessem, optariam por não toma-lo, e no caso, jamais viver a segunda-feira.

Não sei a que nível de maturidade estou, e nem sei se me tornei adulto enfim. O que acontece, é que de tanta amargura, desenvolvi algum senso pessimista que não permite perceber o contraste do bem e do mal, talvez por isso não compartilhe do mesmo sentimento daqueles que vejo durante a caminhada, ou simplesmente a impressão que tiro de tudo seja incerta. Em uma casa, já nas proximidades do bosque de Portugal, há um imenso televisor sintonizado no jogo da Chapecoense e Brusque. A cena me parece normal, tirando o fato de que estou em Curitiba. Logo imagino algum catarinense como eu matando a saudade do campeonato de lá. Subitamente lembro do meu pai, e uma parca saudade me vem. “Chegando em casa vou telefonar”, decido em pensamento enquanto dobro uma esquina. O clima de chuva se confirma e aos poucos começa a cair uma garoa grossa que logo intensifica. Cogito retornar, mas sei que em Curitiba qualquer água é passageira e prossigo caminhando. Ao mesmo tempo que lamento a chuva inesperada ou a empreitada mal planejada, começo também a lamentar o peso da vida, sempre correndo, imprimindo boleto, racionando o mercado, lavando verdura, dormindo mal, preocupado com tudo, até com a mancha de café no taco de madeira.

Chego ao bosque já encharcado, o pé ensopado, o tênis esguichando água, os cabelos escorridos deslizando pequenos rastros de suor e chuva pela nuca. A sensação me causa calafrio e uma alternância de temperatura no corpo. O pessimismo me leva a crer que pegarei um resfriado e aí sim me afastarei do universo adulto para retornar a algum momento da infância em que passei o dia de molho no sofá. Mas ao adentrar o bosque me desfaço de qualquer questão existencial. O bosque de Portugal se trata de um pequeno monumento em homenagem a língua portuguesa. Na entrada há oito pilares para cada país Lusófono e adiante, pelas trilhas, há diversos pilares de menor tamanho, com versos de poetas lusitanos e brasileiros, de Camões a Drummond, alguns falando de saudade outros da pátria. Ao ler os versos de Pessoa, Bilac, Gonçalves Dias, me transporto para a primeira biblioteca que entrei na infância, lá por 1999. Entrar no bosque de Portugal é apenas uma sinopse de uma aventura na biblioteca. Tudo se transforma com os primeiros vocábulos e a lenta assimilação do sentido das palavras, e talvez o que se tire disso ao fim da trilha, é a primeira noção de poesia e língua.

Minha primeira aventura na biblioteca foi por conta de um show do Roberto Carlos. Minha turma do pré fora escolhida pela prefeitura para recepcionar o cantor no aeroporto de Joinville. Ao final da aula um micro-ônibus viria buscar os alunos, assim como os pais, já que para tal precisavam de autorização. Meu pai se atrasou, afinal, a notícia chegou de última hora, e ele desabituado e ir nas reuniões de escola fez pouco caso do evento. No fundo eu estava feliz pelo seu atraso, não queria me enfiar naquela balburdia de gente, nem ter que recepcionar o homem, demonstrando uma admiração que não existia. Acontece que meu pai atrasou mais e mais, e o colégio trocou de turno. Os professores da tarde se foram e os alunos do noturno já iam chegando para a aula. A diretora foi junto e me deixou com a moça da biblioteca, disse que meu pai chegaria logo, logo. Sentei numa mesinha, ansiando para ele chegar, e tentando me distrair a qualquer custo para disfarçar o choro iminente. Eu já sabia ler desde os cinco anos, e até então já escalava em escrito a seleção vice de 98. Na mesa em frente havia uma edição ilustrada de O diabo na noite de natal. Troquei de mesa e comecei a folhear, mais por tédio do que interesse. Pouco a pouco me vi empolgado com a história e até meu pai chegar já tinha lido metade do livro. Lembro que queria ficar, mas pelo atraso e pela chuva meu pai também tinha pressa. A moça disse que eu poderia levar o livro e devolver amanhã, era só dar meu nome. Meu pai falou meu nome meio sem paciência e assim fomos embora.

No outro dia devolvi o livro e peguei outro. Por conta da minha timidez, em alguns recreios fiz da biblioteca minha morada e refúgio, e assim talvez tenha construído a minha história como leitor e professor. Nunca pensei que aquele dia tivesse impacto, também nunca pensei que aquele domingo de chuva, o princípio de gripe, o mau humor de adulto e a saudade me lembrariam daquele dia fatídico. Cheguei em casa quase de noite, a chuva tinha parado mas meu corpo e as roupas guardavam o resto dela. Depois de um banho quente telefonei pra casa dos meus pais e falei com ele. Falamos de futebol e outras coisas. Pensei em agradecê-lo por aquele dia em 99, mas ele não entenderia, já que nunca fora dotado a sentimentalismo. Desliguei e desejei boa semana. O dia terminava, a chuva retornava lentamente. Por conta da lembrança ia deitar mais otimista e com a certeza que a semana teria a mesma leveza dos versos que li no bosque. Fui dormir mais cedo do que o costume, mas não sem antes ouvir Roberto Carlos e dizer baixinho “obrigado, bicho!”.

Apenas um embaralhado de tédio e memórias embaçadas, que entre uma mágoa e um gol de empate, encontra a si mesmo — Professor de literatura e ciclista

Apenas um embaralhado de tédio e memórias embaçadas, que entre uma mágoa e um gol de empate, encontra a si mesmo — Professor de literatura e ciclista