Minha avó temia estrelas cadentes. Não porque algum trauma diante do insucesso a acometia, mas porque nessas noites tão inesperadas, seu pai, um homem com ar de italiano autoritário decidia destilar seus ódios e seus insucessos financeiros nas costas de seu genro, no caso meu avô, que na época era um simples João de sobrenome estranho vindo de uma família estranha de origem judaica instalada num cantão de Araucária. Minha mãe me contou esses fatos com uma imprecisão de sentimentos. Não se lamúriava pela dor de sua mãe, mas transmitia a anedota a mim e minhas irmãs como uma incógnita emocional, cujo valor de crença e superstição somente nós, 3 crianças birrentas e insones pudéssemos dar. A Primeira vez que vi uma foi nos fundos de casa numa noite em que meu cachorro fugiu. O ano devia ser 2004 e na hora me coube pedir apenas que o Flamengo escapasse do rebaixamento e que meu cão surgisse logo das sombras da rua para que eu pudesse dormir. Ambos os pedidos se realizaram, e nem por isso acentuei uma fé que nem a igreja católica me injetava. Tão pouco na última rodada quando enfim o Flamengo se livrou da segunda divisão dei crédito ao pingo dourado que se revelou no céu como uma gota de sol perdida na noite.
Acontece que o coração quando é jovem pede passagem ao sofrimento e nele se instala como um retirante em busca de uma nova terra para plantar suas utopias e recriar os mesmos desastres. Vi outras estrelas cadentes, não lembro onde nem quando. Nem o que pedi nem a quem torci quando o céu gotejou daquele jeito.
Minha memória grava apenas uma idade e uma pessoa. 17 anos e uma bailarina que estudava na sala ao lado. Sem preâmbulos adianto que ela foi uma aposta daquela que seria a minha futura ex-esposa, para não falar o amor da minha vida que um dia vencida pela fadiga da minha melancolia e de minhas birras, sairia pela mesma porta que entrou. Seu nome pouco importa. Bela bela bela, era muito mais que bela. Não era Helena nem Vera nem Nara nem Gabriela nem Tereza nem Maria. Não importa, não era nenhum desses nomes mesmo. E pouco importa um nome a essa hora da noite numa auto-estrada nesta província do estado do Paraná. Mas mesmo sem nome foi a febre daquele último ano escolar. Era 2010. O Flamengo estava aos cacos: Bruno tinha sido preso. Adriano voltava para Itália e Petkovic não dava conta de tudo sozinho. Mas quando aquele raio sem causa nem raiz emergiu no céu, a primeira coisa que pensei foi no nome dela, nesse que não quero revelar, nesse que não ouso murmurar. Repeti seu nome como uma canção nostálgica golpeando um dia comum em meio a garoa e as ruas cinzas de Joinville. Repeti inúmeras vezes que até o desgastei e, todo brilho que havia na imagem relativa aquele nome se apagou e com os anos se tornou um retrato nublado em algum lugar de mim.
Não quero falar de uma história de amor. Os tempos são duros. Não há espaço para isso. Quero falar apenas de um nome. De um nome que coloquei em desuso, lançando ao limbo de um vocabulário arcaico. Porque o repeti tanto que até esqueci de grifar com caneta bic num canto do papel. Desgatei desse modo porque sabia que era impossível detê-lo, prender aos meus lábios ou aos meus dias, então cegamente o repeti até o fatídico dia em que ela foi embora para sua cidade natal. Porque todos um dia retornam ao seu berço, com gosto ou a contragosto, e o amargo disso tudo não retorna com quem volta, mas com quem fica a um canto estático, circulando em tinta vermelha o dia e o lugar daquela despedida.
Agora é tarde para repensar as razões daquele adeus, não faria muito sentido. Adolescente né não? Quem nunca? E se você nunca, calma lá, meu anjo. O amor é bom, a dor é boa, e ambos, mais breves ainda. Nesse relato em que me erro mais uma vez na tentativa de falar de alguém ou da vida, me fica a memória e o nome das estrelas cadentes, porque ainda hoje as vejo tropeçando entre outras, caindo na vertical de um céu curitibano de noite fria e úmida.
Há uma série de dores que poderiam ser curadas nesse pedido. A queda do coiso, a ressurreição do Belchior, esse título da libertadores, um caminho possível a educação no Brasil. Mas não vem. Ainda vem o nome dela, como se ainda fosse um adolescente. Não que ainda tenha apego a esse amor fugidio de adolescente, certamente em outras horas pouco lembro de sua voz e de seu jeito. Passou e a vida e os amores são outros. Os medos mudaram de nome e endereço. Mas repito seu nome não porque ainda a desejo, mas porque desde aquele dia em que a olhei no céu e murmurei seu nome, acabei cometendo um acidente linguístico, dando a uma estrela cadente o nome opaco de uma moça.

Apenas um embaralhado de tédio e memórias embaçadas, que entre uma mágoa e um gol de empate, encontra a si mesmo — Professor de literatura e ciclista

Apenas um embaralhado de tédio e memórias embaçadas, que entre uma mágoa e um gol de empate, encontra a si mesmo — Professor de literatura e ciclista