Há metafísica em cada marquise

[…]

Mas se Deus é as flores e as árvores

E os montes e sol e o luar,

Então acredito nele,

Então acredito nele a toda a hora,

E a minha vida é toda uma oração e uma missa,

E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Fernando Pessoa (sob o heterônimo de Alberto Caeiro)

A luz cai e o bairro do Rebouças não se move, como se a paisagem e seus relevos fossem modelos perfeitos para o amarelo expressionista que o pôr-do-sol dedica aquela faixa de Curitiba. Meus olhos intercalam entre a leitura e a paisagem em metamorfose, avaliando as possibilidades para o começo da noite. O apartamento me aconchega e a solidão é cirúrgica, mas o organismo acusa uma indisposição, o que me leva a ideia de caminhar pelo bairro para eliminar a cerveja e os carboidratos do fim de semana. A iminência de uma chuva me faz recuar, o céu não apresenta sinais de umidade, o crepúsculo já se foi e um rumor de incerteza preenche àquelas horas.

Quando saio a rua, a noite já é plena e um relógio digital entre a Ubaldino do Amaral e a Sete de Abril marcam vinte horas e sete minutos. Na lentidão dos passos, ainda receosos de sair de casa um pouco tarde, volto meu pensamento a janela: dos inúmeros fins de tarde que passei apoiado, mirando a paisagem, imaginando o destino de cada carro que some ao fim da sete de setembro, o que meus amigos fazem àquela hora e o quanto a pandemia já nos tirou de vida. Me desfaço destes pensamentos num lampejo, não é para isso que inventei esta caminhada e me vou pela Sete de Abril buscando a José de Alencar e me afastando mais dos trechos movimentados do Alto da XV. O movimento é ameno e em um final de ano, tudo se encontra emburrado e indeciso, como se ninguém mais quisesse apostar na própria sorte ou nas próprias vontades. Faço de conta que é um dia normal e sigo caminhando evitando qualquer reflexão penosa ou memória desagradável. É preciso cegar os pensamentos e as ideias, deitar-se sobre si como uma folha em branco e deixa-la como tal: sem passado ou futuro.

Já afastado da rua de casa, um vento frio sacode as árvores de um quintal e o lixo em volta, talvez fosse hora de retornar a casa, mas o corpo acostumado a caminhada segue rumando em direção ao Cabral (ou Juvevê?) e a cabeça se mantém imune ao mundo. Nenhuma nostalgia me quase ninguém me cruzava o caminho, me sentia um Vagamundo a buscar causos e imprevistos em plena semana de natal. Um trovão recortou o céu e receoso, cogitei recuar, justo na melhor hora da caminhada, a vida é sempre assim. O tempo não me convencia de que aquela caminhada tinha fruto e acelerei o passo tentando mover-me conforme o tempo de minhas ideias e logo atinge a Avenida Paraná, situando-me enfim no Cabral e na certeza de que estava longe de casa. Seria hora de voltar mesmo?

Fiz o caminho de volta mais lento e saciado, quase certo de que a caminhada valera a pena e as decisões da vida adulta iam por um terreno seguro. Quando a chuva enfim cai e me desloco a uma marquise qualquer, de uma rua em que jamais cruzei antes. A sensação de medo e abandono dispensam a sensação de corpo e mente saciados. Não iria retornar a casa tão depressa, sentei e assisti as águas levarem os dejetos e a poeira acumuladas sobre o asfalto. Não sabia bem a que ponto estava de casa, se o Couto Pereira era a direita ou esquerda, se descendo a próxima esquina ia ao Cabral ou Alto da Xv. Na iminência de passar a noite ali, esperei o primeiro sinal da estiagem e subi a mesma rua desconhecida e dobrei a primeira esquina em busca de uma esperança. Apenas muros e casas desertas e a chuva enganando-me em uma calmaria apenas psicológica. A água corria em mim e a chuva parecia inútil ao meu corpo enxaguado. Talvez a febre antecipada me levasse a corre em qualquer direção para fugir da chuva, só parei quando vi um muro de pedras e uma marquise um tanto rústica. Parei e fiquei ali a espreitar o mapa da memória.

Não reconhecia nada, nem luz havia para clarear as ideias. Fiquei uns instantes circulando o monumento de pedra e me vi diante de dois moradores de rua abraçados em uma outra marquise. Passei e ofereci um boa noite amendrontado. Fui recebido com simpatia mas passei reto e enfrentei a chuva circundando uma espécie de praça e quando me vi estava em frente a capelinha em frente ao Couto. Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

Próximo de casa me senti seguro e me deixei levar pelo culto realizado em pela segunda-feira. Calei-me e tentei compreender o que o líder proferia enquanto a chuva escorria pelo granito em volta. Ideias incompreensíveis e uma confusão sonora, preferi olhar e enquadrar a familiaridade de cada rosto e corpo ali presente. Ninguém familiar (como todo mundo nessa cidade). Subitamente a imagem e a música me levaram para meu tempo de catequese, o tempo em que minha mãe depositava uma imagem de Deus dentro de mim e que na minha insegurança de criança, me agarrava como uma tábua de salvação.

Naquele tempo eu era uma pessoa bonita, de gestos e modos, e me corrompi na tentativa de encontrar uma explicação para Deus e uma razão para os meus medos. Cresci sem ver que abandonava uma parte da sala de catequese. Morri algumas vezes tentando me explicar e também explicar a ele. Em meio a pandemia que estamos, não seria hora de questionar a existência de um Deus; nem recorrer aos livros e tão pouco aos noticiários, muito menos naquela chuva que impedia meu regresso tranquilo àcasa. A chuva caía e minhas dores se esvaíam conforme percebia que a chuva não teria trégua pelas próximas horas. Teria de enfrentar a enxurrada d’água e ir pra casa antes que fosse tarde. Queria poder entrar naquele culto sem que chamasse atenção: camisa adidas, shorts e tênis azul. Ensopado. Deixei-me embalar pela sinfonia do som da chuva e dos cânticos da igreja, havia uma certa alegria e verdade nessa mescla de sonoridade. De olhos fechados, busquei encontrar-me com Deus do lado de fora de sua casa, mas falhei pelos longos anos de afastamento. Na inercia de não questionar a existência de Deus, desviei o olhar da igreja, evitando busca-lo ali. Não buscaria ele em lugares em que ele já foi. Voltei-me para a rua e a paisagem, contente de que se existia Deus, ele estava na chuva, nas pedras, no abraço dos indigentes, na paisagem, no silêncio e nas lágrimas que eu renegava àquela hora diante da descoberta que o tive, ao menos uma vez, tão perto de mim.

Apenas um embaralhado de tédio e memórias embaçadas, que entre uma mágoa e um gol de empate, encontra a si mesmo — Professor de literatura e ciclista

Apenas um embaralhado de tédio e memórias embaçadas, que entre uma mágoa e um gol de empate, encontra a si mesmo — Professor de literatura e ciclista