Esboço para o capítulo final de uma novela sobre as verdadeiras lágrimas de Portugal

A rua XV está vazia como nunca, e eu sou um homem sozinho te procurando em luzes que já não habitas. As calçadas resguardam sombras de vidas desavizinhadas de mim, e tão rasas; que não valem mais a pena remar. É domingo, um dia como qualquer outro. Saí a procura de almoço para preencher um vazio que já não sei qual é. Tudo está fechado logo agora que decido sair ao mundo; todos se encontram em casa celebrando este feriado de outubro, ansiando pelo sorriso da criança a desembrulhar presentes no centro da sala. Tu devias ter voltado em uma semana.

Sento-me a um banco de pedra a mastigar um pão com imensos nacos de carne junto de uma cerveja sem nome. Comprei-o num restaurante com cara de padaria, disseram-me que era o do dia. Mas que importa e o que é “o dia”, para mim, que me desfaço há dois meses frente ao calendário?

Do outro lado da calçada há um mendigo sem pernas entoando sua flauta; nada ouço mas aprecio a cena enquanto vou decifrando o sabor do sanduíche. Às minhas costas há um músico de cabelos compridos a cantar uma música de amor do ano em que tu nasceste. (e é certo que não estás aí a roubar o refrão de um fado para se lembrar um naco de mim). Não consigo me desapegar das referências de ti; mesmo quando me esforço para que desapareçam, eu as invento para tu existir mais um pouco por aqui. A canção já não faz mais graça, quase 30 anos, a tua idade, e ainda por cima entoando um amor. Ridícula. Como todas as cartas de amor. Não fazem mais sentido. Ou. Não. Nunca tiveram. Escrita em 1993 ou 42, não faz tanto peso; àquelas épocas também já não acreditavam no amor, e insistiram em cantar e escrever e chorar e reciclar os sentimentos, com toda certeza de que estavam às cegas no mesmo barco, apenas em um ano diferente.

Eu poderia, por exemplo, terminar esta história iniciando este último capítulo com o primeiro parágrafo assim: “Camila (porque este é o teu nome) partiu no auge do inverno curitibano e deveria regressar na segunda semana de primavera”. Não estou mentindo e nem posso mentir, o parágrafo se fosse escrito, seria verdade e tão fidedigno a nossa realidade, mas soa clichê, gasto e banal e não posso enfeitar de tristeza aquilo que realmente é tristeza. Assim como não posso ignorar teu nome, echamar-te de ex, outra, a antiga, a falecida ou qualquer que seja a palavra de valor nominal para coibir e anular a tua existência. Não, não posso e nem devo fingir. Até ontem eu ficava triste ao ver a vida pela janela e saber que era lá que tudo habitava, que lá a vida era firme e sem rodeios para ensaio ou lamento. Vê bem, já não posso evitar a tua partida. Já não posso dar as costas para o mar ou acusa-lo de te levar. Do outro lado de qualquer praia daqui, estarás tu do outro a sorrir nos braços daquele, em uma relva no Alentejo ou num café em Lisboa, numa praça do Porto ou numa ribanceira em Algarve.

Devias ter voltado em setembro, e outubro chegou sem luz alguma que indicasse a estação em que me encontrava. Ansiei por uma manhã em que irradiasse a luz adequada para sair às praças e aceitar enfim a dor; porque até então, eu a escondia no travesseiro, no borrão da minha agenda, na luz apagada do consultório ou no último porre que tomei no bar do Marcelo. Queres saber? Eu ainda não consegui chorar. Porque talvez tenha desaprendido e me desapegado daquilo que realmente me põe vivo. O choro não será a dor. O choro será a confirmação da vida. Assim como a canção que ouço agora; ela também se refere a setembro, mas a um setembro qualquer, e por mais que coincida com a minha dor e o teu regresso mal findado, é apenas uma alegoria; talvez no íntimo de quem a escreveu e cantou, o mês era maio, ou quiçá abril e janeiro; setembro foi como a dor surgiu à luz de quem cantava. Por isso agora choro, e não pela canção e muito menos por ti; choro por notar que o pão está azedo e a carne, certamente, requentada; e isso me confirma que estou vivo, que já não preciso negar a escuridão e o naufrágio que fundaste apenas para mim; por isso agora posso enfim conviver com tua ausência e aceita-la e ver de frente tudo que ela é. Olha, tu devias ter voltado em setembro e já é o segundo domingo de outubro. Mês que vem será novembro, depois dezembro, e enfim 2019. Por mais que as coisas se ajeitem aqui e aí, e possamos olhar o mar, cada um ao seu lado do atlântico, com quase tudo superado, eu com a mágoa e você com a culpa, a única certeza que me cabe agora ouvindo o rapaz com o violão a insistir na canção do ano em que você nasceu, é que este setembro é um mês que não acaba. Nunca acabará.

Apenas um embaralhado de tédio e memórias embaçadas, que entre uma mágoa e um gol de empate, encontra a si mesmo — Professor de literatura e ciclista

Apenas um embaralhado de tédio e memórias embaçadas, que entre uma mágoa e um gol de empate, encontra a si mesmo — Professor de literatura e ciclista