Reencontrei Gustavo depois de oito anos, numa tentativa meio tosca de bater uma bola e colocar o papo em dia. Parecia um evento típico, os amigos que se encontram nas férias de janeiro, cada um em sua área de atuação, assinalando com isso a particularidade de cada universo e um destino oposto ao do outro. Quando o ícone do Messenger abriu com sua foto, encaminhando o convite pra jogar bola, logo ao aceitar já premeditei a cena: uma hora de futebol, times opostos, tapinha nas costas, apertos de mão, “desculpa qualquer coisa/bom te ver”, e ao final uma conversa carregada de nostalgia em meio alguns litrões de brahma. Mas não foi bem isso. Gustavo foi meu colega de turma no ensino médio, participamos da mesma chapa do grêmio estudantil, em que lutamos por causas absurdas e acreditamos com certa ingenuidade em pequenos projetos para o colégio. Seria óbvio que aqueles momentos fossem resgatados no tempo e colocado em análise ali, quase uma década depois. Mas não foi bem isso. Não esperava por exemplo, encontrar Emanuel nesse jogo, um amigo de infância, que conheci em uma época diferente da que conheci Gustavo, em outro bairro, em outra escola. Até agora não sei bem o vínculo que uniu estes dois colegas, tão aleatórios um ao outro, no mesmo grupo de futebol no WhatsApp.

Das lembranças que tenho de ambos, as de Emanuel são as que me cativam mais. Nos conhecemos na segunda série e estudamos juntos até a oitava. E nesse tempo, vivenciamos de tudo e enfrentamos os rituais mais típicos para aquela geração: campeonato de Winning Eleven valendo uma coca-cola, pular a cerca pra roubar cana dos vizinhos, jogar bola na rua, brigas, perder aula na direção, troca de cds do Strokes, verdade ou desafio com as meninas da catequese. E é aqui que reside minha lembrança mais viva, mas nem por isso dolorosa, que tenho de Emanuel. Quanto tínhamos lá nossos 12 anos, ele roubou uma namorada minha, o que na época ficou impune. Ela tinha teve todos os motivos pra me largar. Aos 12 anos eu só queria saber de jogar bola e economizar dinheiro pra comprar cds e camisetas de banda. Não cuidava da minha aparência nem da minha personalidade, que ao contrário de Emanuel, que sempre cuidava do cabelo e procurava ser o tipo mais bacana possível com todos, o que ainda é até hoje. Não iria estragar uma amizade por isso, uma vez que Emanuel era o galã, o don juan, o pegador da minha época, enquanto eu era o patinho feio por vocação, de cabelo comprido e brinco na orelha. Não foi preciso nenhum esforço mental para reconhecê-lo por trás de um rosto batido e uns quarenta quilos a mais comparado àquela época. Continuava o mesmo sujeito carismático e de bem com a vida.

Gustavo e eu jogamos em times opostos. Emanuel jogou no meu, começou no gol e depois foi pra linha. Quando assumi o gol, vibrou com certa emoção a cada defesa em que eu acertava, já que eu nunca tinha tato para goleiro, e assim foi quando voltei pra linha e fiz três gols. Era o único que aplaudia meus lances e me chamava pelo apelido daquela época, o que por pequenos segundos, me transferia para o ano de 2004, quando comandávamos a quadra do colégio, achando que aquilo era nosso quinhão maior.

Ao fim do jogo, pouco conversei com Gustavo. Sentei próximo a Emanuel, e como esperado, trocamos pequenas informações sobre nossas vidas e aqueles amigos que um dia fizeram parte de nossa turma. Uns casaram, outros sumiram, um foi preso, outro morreu. Falamos sobre as meninas, agora com um certo ar de respeito pois algumas já tem filhos, assim como Emanuel, juntado há três anos e com uma filhinha de dois. Muitos dos que jogaram a partida também eram casados e partiram logo ao fim do jogo. Os que restaram, se uniram em torno da cerveja e de um bom papo para começar aquela segunda-feira. Aqueles que jogam futebol sabem como são as pautas de conversa pós jogo: futebol, mulheres, emprego, carros e finanças. Habituado a jogar bola com professores, mestrandos, jornalistas, músicos e pesquisadores, quase nem me tocava que se conversava de forma odiosa sobre orientação de gênero, rede globo, Bolsonaro, família, Pabllo Vitar. E por mais absurdo que seja, essa foi a pauta que guiou aquela conversa. Tudo começou quando um dos rapazes da roda, patrão de Emanuel, disse que ficou um ano sem beber por conta de uma promessa que fez, caso o irmão se livrasse de um aneurisma. Um outro elogiou o gesto e emendou:

“Sou evangélico mas não sou alienado. Não deixo de beber minha cerveja, sei dos meus limites”

Atitude invejável, e diga-se, super sensata se tratando de alguém dotado de ritos e crenças. Seria digno e cômodo de minha parte, se dali a uns cinco minutos tivesse me despedido da roda e rumado pra casa, mas não. Não houve recordações resgatadas, nem informações bizarras ou notícias sobre amigos, tanto da roda de Emanuel quanto a de Gustavo. O que houve, foi um show de revelações, as quais não quero qualificar como ridículas e tão pouco hipócritas, mas que por alguns instantes me causou certa náusea e espanto.

“Não ligo se um filho for gay. Eu odeio, mas vou ter que aceitar” disse um, o evangélico que gosta de beber.

“Pois é, cara. Tenho duas filhas e os caras me zoam ‘vai ter dois genros’. E eu digo, que bom que terei genros e não noras né” disse o patrão de Emanuel

“Nem assisto a rede globo, odeio aquela merda, que incentiva a viadagem” emendou Gustavo

Emanuel saiu da roda e foi atender o celular. A filhinha estava na casa da sogra e ele ligava para dizer que dali uma meia hora passaria para buscá-la.

Se no tempo de colégio Emanuel era o dito garanhão, que não fazia esforço algum para chamar as meninas, já que elas corriam até ele, Gustavo era um rapaz comum. Vivia na friend zone, não era bonito, não tinha bom papo, estudava na medida que precisava, falava apenas o que sabia e não apresentava nenhum outro atrativo além de participar do grêmio estudantil. Emanuel não concluiu o ensino médio, engravidou a namorada e fez um cursinho de torneiro mecânico, o que lhe garante o sustento até hoje. Gustavo ao contrário, agora é engenheiro, epossivelmente bem remunerado em se tratando de Joinville. Como professor, reconheço sem recalque algum que talvez ele tenha um futuro melhor que o meu, mas isso sob um ponto de vista comum, já que ambos tiveram direito a escolha, cientes do que viria depois. Por vezes me vejo abatido por conta da realidade do ensino, mas isso é raro, passa batido e logo me recupero diante de algum projeto que pretendo executar. Na verdade, sujeitos como Gustavo, o Gustavo que reencontrei anos depois, me devolvem a autoestima em tempos de crise.

“Não entendo viado, como não gostar de mulher, porra ? Eu sou que sou um putão, mulherengo, não entendo como alguém não gosta de buceta”

Sinceramente me assustei com a auto intitulação “mulherengo”. Pensei citar Emanuel como bom exemplo, mas Gustavo não entenderia, assim como não entendi o fato de ser considerado mulherengo. Mas depois saquei: Gustavo tinha dinheiro.

A partir daí, a pauta girou apenas em torno de zonas, bordéis, puteiros, café show, boates, casarões, qualquer nome que queiram dar. O mesmo evangélico, que bebe, odeia viado, e que também reclamou que nas novelas não se tem mais famílias e também citou o Ratinho, falando de como poderia existir viado no tempo de Lampião, trouxe uma anedota, no mínimo absurda.

“Minha mulher é manicure né. Acredita que as gurias lá do café show foram fazer unha no salão ? Na hora gelei, pensei que iam falar de mim. Disse pra minha mulher não atender mais essas mulheres, pra me ferrar é dois toque”

“Mas lá no café tem cada cavala, me apaixono toda vez que vou lá. Nem ligo de deixar 200, 300 contos” suavizou Gustavo

“Cada coisinha, rapaz! E só querem saber de dar, o dia inteiro vivem no salão e de noite sugam o cara. Mas tem que comer mesmo, o cara tem mulher, filho, se estressa, tá no direito. É ou não é ?” disse o patrão de Emanuel olhando pra ele e apontando o dedão “Esse aí esses dias lá no café, se engatou com uma, pagou drink, quis beijar na boca. Acredita que a gostosa tinha um filho da idade dele ?”

Gargalhadas soaram. Não entrei no assunto. Nem referente ao discurso de ódio sobre homossexuais, nem sobre a qualidade das moças do café show. Não costumo me envolver em discussões que gerem polêmica, tudo acaba sempre numa rixa de fla-flu e estragam as rodas. Quando Gustavo disse não acreditar que homossexuais nascem assim, e que tudo na verdade é uma questão de criação, família e educação, pensei em explicar um pouco disso, tentando diminuir aquele ódio infundado sobre os ditos viados. Mas me calei em torno daquela roda. Na hora de ir embora, me percebi um pouco triste como há muito não me sentia. Tanto tempo convivendo com amigos minimamente abertos a discussões e dispostos a uma pluralidade cultural, me fizeram crer que esses tipos rancorosos, adeptos de um discurso de ódio, realmente só existissem no facebook. Mas descobri que eles tem cara, nomes, carros, empregos, famílias e frequentam os puteiros mais topzeiras da cidade. Me despedi de todos em silêncio, sem demonstrar minha decepção. Na hora de dar a mão a Emanuel, este tinha um semblante muito mais triste que o meu e um tanto quanto envergonhado. Me pediu desculpa, algo como “desculpa qualquer coisa”. Geralmente este lugar comum é dito ao final de um jogo, passando a limpo qualquer xingamento ou canelada, mas o jogo já tinha acabado. Demorei uns segundos pra entender que o pedido de desculpas se referia ao tempo, assim como a vergonha e a tristeza, de um tempo em que éramos meninos e não tínhamos opiniões, de um tempo em que não nos preocupava a vida alheia e a um tempo em que Emanuel não precisava pagar para conquistar mulheres.

Apenas um embaralhado de tédio e memórias embaçadas, que entre uma mágoa e um gol de empate, encontra a si mesmo — Professor de literatura e ciclista

Apenas um embaralhado de tédio e memórias embaçadas, que entre uma mágoa e um gol de empate, encontra a si mesmo — Professor de literatura e ciclista