Como me tornei jogador do Flamengo

Mais um campeonato acaba, e como costume, meu time amarga uma posição qualquer que não a do primeiro lugar, o digno campeão. É segundo, foi vice, uma campanha boa para os tropeços iminentes do segundo semestre pra cá. Junto a isso, também encerra-se um ciclo financeiro e administrativo, em que o presidente Eduardo Bandeira de Melo conseguiu reajustar as contas do clube, quitar dívidas, aumentar a receita, propor investimentos, um novo centro de treinamento e a promessa próxima de um estádio. Um cenário nitidamente bem distante do que conheci na minha infância: salários atrasados, contas vencidas, falta de estrutura, tanto moral quanto administrativa.

Bem nesses anos meu único projeto de vida era ser um jogador de futebol, não um qualquer. Queria apenas jogar no flamengo, vestir o manto, treinar na gávea, entrar num segundo tempo, lá pelos 34 minutos receber uma bola de frente para a área, com dois ou três marcadores impossibilitando o acesso ao gol, girar a bola sobre o pé, puxar para a direita num drible rápido, livrar um desses zagueiros e combater os outros dois com um chute inesperado que pegaria o goleiro sem reação. Podia ser apenas um carioca, em cima do fluminense de preferência, pra vingar aquela mágoa dos 4x1, do jogo em que o goleiro Júlio Cesar num ato de loucura se lançou ao ataque e provocou um bate-boca com o então técnico Evaristo de Macedo. Minha paixão pelo flamengo na época beirava a loucura, caindo diversas vezes num choro inconsolável, assim como uma raiva inquebrantável, me desfazendo de amizades e boas companhias. Minha mãe sempre dizia que o flamengo iria virar o jogo, mas eu, iludido, inconsolável e ciente da realidade, sabia que aquilo era apenas uma fala para acalmar meus ânimos.

Eu era uma criança e queria ver o meu time campeão, nem que para isso fosse preciso entrar em campo. Por anos joguei na escolinha do Avaí onde meu pai era sócio, numa tímida tentativa de trilhar os caminhos que me levariam a gávea. Lembro que as mesas redondas que meu pai acompanhava na televisão, distribuíam críticas ácidas a má gestão administrativa do flamengo e colocavam parte desse projeto naufragado como fator para o desânimo do time dentro de campo. Eu pouco entendia disso, mas recordo bem as palavras, e contestava comigo mesmo, que estar no flamengo era uma questão tão absolutamente honrável e privilegiada que não necessitava de salários ou bonificações do gênero. E também me convencia de que jogar bola não era uma profissão, e sim uma diversão expandida da infância até a idade adulta. Por algum momento cheguei a jurar que jogaria pelo flamengo sem salário.

Com o tempo minha paixão pelo futebol foi diminuindo, e entendi que meu físico e minha falta de vontade não me levariam aos gramados, e assim percorri uma adolescência experimentando de tudo um pouco: violão, desenho, ciclismo e só fui entender que minha vaga vocação estava nas letras. Queria ser escritor ou trabalhar com algo que explorasse toda essa parte da linguagem. Sem perceber me tornei professor e estava numa sala de aula frente a algumas dezenas de alunos, intercalando o conteúdo do processo de formação das palavras, aglutinação e justaposição, sufixo, prefixo, radical. Por ora pausava a explicação e soltava alguma piada pronta para quebrar o peso que é ensinar gramática nos dias atuais. Em meio a isso, algum aluno comenta sobre futebol com o outro. Chamo a atenção e dou continuidade a aula.

Tristemente a memória dos anos 2000 e da má gestão do flamengo retorna em forma de um soco no estômago. Não há mais o que ajustar nas finanças do time, apenas o elenco necessita de uma reformulação prévia para a próxima temporada. Títulos, apenas isso. Mas o golpe que recaiu lentamente sobre mim foi frio e cortante, provocando um vazio inconsolável assim como o vazio dos meus bolsos, que há semanas não tinha notícia do próprio salário. Boletos, alimentação e diversão, tudo acumulado num limbo de incerteza e incompreensão. Algumas tentativas de compreensão da responsabilidade administrativa circularam minha cabeça, nada que eu pudesse aceitar e crer que fosse tranquilo e pudesse passar logo. Há bocas que precisam comer, há consciências que precisam dormir, há o respeito entre credores e locatários. Não cabe a mim julgamento ou um caça ás bruxas, muito menos a construção de um discurso em que a ética vem como fundamento. Enquanto tais pensamentos com certo teor negativo afundavam a mim mesmo, algumas aulas previamente planejadas precisavam acontecer, e quanto mais eu me demorasse melancólico estacionado sobre o gelo, mais a possibilidade de um rachadura e de um afogamento viriam a ser reais. Cheguei ali porque quis e se estava em tais lençóis era porque tudo fazia parte do pacote, desde o momento em sonhei que a leitura pudesse recriar o sentido das coisas e certas realidades. Há certos sonhos que para vivê-los, é preciso aceitar uma dose de pesadelos durante o trajeto, e quanto a isso, não há muita filosofia. Isso é a vida.

Parece que a fala do menino de nove anos agora espancava a consciência do adulto que entre uma aula e outra buscava fingir a realidade e continuar falando sobre a prosa romântica e as dissertações do vestibular. Não era hora para isso, o adulto falava ao constatar que o sonho do menino naufragara há quase vinte anos, que o mais perto que havia chegado foi disputar um campeonato amador na cidade já com vinte e dois anos e uma cabeça totalmente desprovida de sonhos. Mas ao final da aula, descendo as escadas e mentalmente calculando as moedas no bolso, os trocados no banco e o limite do cartão de crédito, o adulto sorri amargamente que então o sonho do menino havia chegado, sem a glória, sem a bola, sem a camisa e amargamente sem o salário enfim se tornava um jogador do flamengo.

Apenas um embaralhado de tédio e memórias embaçadas, que entre uma mágoa e um gol de empate, encontra a si mesmo — Professor de literatura e ciclista

Apenas um embaralhado de tédio e memórias embaçadas, que entre uma mágoa e um gol de empate, encontra a si mesmo — Professor de literatura e ciclista