Do meu vizinho de cima sei apenas a voz e alguns dos ruídos esparsos que faz ao longo da manhã. A quarentena e o isolamento nos levam a vivenciar os rituais e a intimidade de quem está próximo. Morando num prédio de 15 andares, com 8 apartamentos por andar, torna-se impossível não absorver a vida de quem nos cerca. Ontem mesmo depois de me irritar com a quantidade de trabalhos para fazer, a impossibilidade de sair, caminhar ou beber um trago no bar do Marcelo, fiquei na cama a olhar o vazio pela janela e dei com os gestos e ritos noturnos que meu vizinho cumpria e que se refletiam em sombras fracas na parede do prédio ao lado. Deitei mais cedo, triste e envergonhado pela imbecilidade que se tornou minha quarentena, distraindo-me com o que faz o rapaz do apartamento 135. Senti-me um tanto parvo na manhã seguinte, por observá-lo e me repreender punitivamente por tão pouco.

No resto do dia captei um diálogo intenso que fazia com alguém que não estava consigo em casa, uma chamada de voz ou vídeo. O jeito que falava parecia muito mais que parvo, e parvo era uma palavra que aprendi observando, quase sem querer, suas chamadas com uma suposta namorada. Dizias a ela: “que fazes a esta hora da noite, Luísa? Choves ou faz sol em tua terra?” Não parecia sério o jeito de se expressar. Por vezes, cogitei que falava com uma criança, filha, prima, sobrinha ou irmã menor. Mas não era. Falava com alguém de carne, cujo corpo era matéria de sua quarentena. Dizia “Quero olhar-te de perto quando tudo acabar, ver de que modo encara o pôr-do-sol ou reclamas do trânsito”. Havia um sentimento infantil no jeito que se expressava e me doía observar isso, pois em meus 28 anos, já não era capaz de amar deste jeito infantil e tão pouco como um adulto.

(Distraía-me com suas conversas; era a única forma de me aproximar do amor e aceitar que a mulher que amei nos últimos meses antes da quarentena agora era noiva. Revivia o amor sabendo que o esquecia nas lembranças opacas daquela que se foi. Quando acordava, repreendia-me por observar demais o desenlace de meu vizinho. Decidi que logo que a quarentena acabasse forjaria um encontro amoroso com qualquer mulher do passado, mesmo que fosse para consolar-me com a ideia de que eu não amaria mais ninguém. Sairia de casa apenas para me arrepender ao fim do encontro).

Tanta possibilidade de conteúdo livre na internet e eu cá a acompanhar a sua primeira briga. Torci para que reatassem tão logo eu dormisse e meu sono calasse todas as vozes que lhe perturbavam o amor. Não consegui dormir e passei a noite ligado em sua voz como se fosse um capítulo de telenovela. “Não sejas parva, Luísa! Não saio de casa há tanto, só há tu em minha quarentena, és a melhor descoberta destes tempos, pare!” Contra-argumentou de uma forma maternal já perto de apagar as luzes e o sono me golpear: “um dia hei de cozinhar todas as coisas gostosas para ti e deixaremos a louça suja, porque haverá mais tempo para além dos nossos medos”.

Em uma tarde que o sol reinava mais que o tédio e a clausura do isolamento, ouvi-o dizer. “Vamos caminhar nesta tarde, eu saio às 16 e tu sais um pouco depois”. Fiquei parvo, não agradava-me que ele saísse para encontros furtivos em meio ao cenário pandêmico apartamento a fora. Fui de imediato ao corredor, subi até sua porta e fiquei na espera de que saísse para impedi-lo de furar a quarentena. Demorou um pouco e não saiu, as luzes do corredor apagaram-se e a noite apagou-me para tudo. Na tarde seguinte compreendi que estavam a brincar de se encontrar e caminhar juntos e comer algo na rua e voltarem saciados para casa. “Luísa, hoje não irei sair, chove muito em minha terra e já se faz noite na tua, deixamos para amanhã”. E comecei a gostar da brincadeira, de compreender o quão doce era reinventar o mundo após esta quarentena e o cenário turbulento.

Nas primeiras semanas do verão, acreditando que a quarentena pudesse estar no fim, ouvi-o dizer. “Não quero mais brigar, Luísa, chega!”. E pela primeira vez chorei como se fosse minha ex-namorada a me ilustrar fotos de seu casamento. Calei-me tão amargamente e decidi que era hora de mudar de apartamento, talvez de cidade ou voltar para meus pais. Vi que Portugal era um dos caminhos e dediquei o meu tempo a mudança e deixei meu vizinho de vez. Toda vez que o ouvia entre um chicote em forma de briga ou uma carícia verbal, colocava os fones a ouvir uma canção qualquer do Led Zeppelin, a remontar a um momento em que eu não sentia amor ou a nuance da paixão.

“Tu estás livres e estou livres”.

“Vamos caminhar, Luísa!”.

“Há tantas léguas a nos separar”.

“Faz, sol, Luísa!”

“Porque não vamos unidos”.

“Já chegaste, Luísa? Ainda não saí para o nosso passeio.”

“Manda novamente algum cheirinho de alecrim.”

“Luísa, estou a ver um filme sobre Deus”.

“Tens a minha mão aberta à espera de se fechar”.

“Como não consegues dormir sem mim?”

“Cá estou carente.”

“Acabou o café, Luísa”.

“E eu sou melhor que nada.”

Sei que quando tudo isso acabar o apartamento não será o maior de meus problemas. Nem a lembrança de uma mulher que se foi. Haverá outras mulheres, novas casas para visitar, conversas mais dinâmicas para espiar ou, quiçá, participar. Viajar para Portugal é uma rota interessante, mas se o dinheiro não bastar, vou à praia ou apenas a casa de minha infância, almoçar e revisitar a década passada com meus pais. Meu vizinho também deixará de incidentes, de sentir-se parvo diante de Luísa, de ficar imaginando passeios e piqueniques em cidades opostas. Poderá quem sabe, trazer Luísa em sua casa e ouvir música enquanto fazem rabanada e tomam café. Eu poderei estar em casa ou fora, ocupado comigo ou com alguém. Sinto que já não vale mais ocupar-me dele. A hora em que este texto estiver acabado, meu vizinho terá saído já de casa. Inclusive, ouço dizer a Luísa que está entediado e que não quer sair a passeio, mas Luísa o surpreende e pede que saia. Surgem então ruídos no teto do apartamento: é meu vizinho calçando os tênis e dizendo a Luísa que já está pronto a sair e logo se espanta “O quê? Luísa, tu já estás a chegar em minha casa? Como atravessou a portaria sem autorização?” Novos ruídos no teto: meu vizinho descalça os tênis e arrasta qualquer móvel e sacode uma toalha na janela. Ouço o elevador ruir em seu estrondo mecânico. Sinto-o passando em meu andar e pousar no andar a cima. Alguns passos ecoam após a porta se abrir, o molho de chaves repica como um sino em miniatura, anunciando a todo prédio que Luísa está para chegar.

Apenas um embaralhado de tédio e memórias embaçadas, que entre uma mágoa e um gol de empate, encontra a si mesmo — Professor de literatura e ciclista

Apenas um embaralhado de tédio e memórias embaçadas, que entre uma mágoa e um gol de empate, encontra a si mesmo — Professor de literatura e ciclista