a camiseta polo do mesmo tom que você compra todo ano

Você sempre vai fazer igual, meu boy, e sempre vai cair, levantar e crer que há um destino trágico em torno desses tropeços. Sempre vai contar as mesmas anedotas, falar do teu pai, da tua mãe, da cidade em que você pouco visita, e incrível que todos vão gostar de você, porque apesar desse rancor embebido no teu olhar de deboche, você tem um carisma estúpido que agrada a todos, e vai cativar aos poucos, falando coisas que vão além de tua idade, dos jogos que você acompanhou na televisão, das bobagens e músicas que ouvia num tempo fora do teu, vai surpreender a todos como conhece as estradas do Paraná e de Santa Catarina e vai fingir que a culpa é deles, que todos a sua volta é que se apegam ao teu jeito prolixo e marrentão. Vai chegar nos bares com a camiseta polo do mesmo tom que você compra todo ano, pois uma desbota e você vai lá e repõe, porque lhe cai bem aquela cor e vai galgar nas botas montanhismo que há anos usa, presente de sua vó que tanto lhe cuidou e assim vai sentar, pedir um conhaque e depois uma cerveja e vai olhar a todos enquanto o álcool se dissolve entre tua língua e o balcão, vai pensar três vezes se puxa conversa com alguém, mas reflete e se põe outras vezes no mesmo papel em um filme idêntico que se gasta há anos. Então a voz de alguém seja no bar ou no trabalho, vai te trazer para realidade e você vai olhar aquele rosto, aquele corpo e aquele jeito, e vai sacar que é só mais um filho da puta que você vai usar sem saber, alguém que vai te puxar naqueles dias infames em que decide que o mundo não serve pra você e nem as pessoas, e que tudo é culpa do teu pai e da tua mãe, e você não cede, você finge e faz isso bem, porque enquanto alguém te segura, você abre mão dela logo ao dobrar a primeira esquina, e você cai como se fosse a primeira vez e volta pra casa num silencio fúnebre, apagando todos os ruídos do mundo, e o som da fechadura parece um berro, a porta encostada te agride e você deita no escuro tolamente parafraseando, E agora José? E não há resposta para isso, pois você não se chama José. Seu nome é outro, e é estranho e causa papo e você com certa acidez se põe explicar a versão do substantivo que te define e outra vez são teus pais a se deitar numa cruz, pois o substantivo não é você, nunca é você. São sempre eles ou elas, e vai chegar um tempo em que as paixões vão te esgotar e você vai se lançar nelas e vai se rachar, mesmo sabendo que o lindo lago do amor secou, mas você insiste e arrasta pra junto de ti, pros teus braços ainda macios da infância que tua mãe te ajuda a conservar, do teu dna privilegiado que você detesta frente ao espelho, e ela vai te amar, vai abrir mão de uma série de porcarias na vida dela e você não enxerga ela, pois não é ela que você vê, você apenas busca o sabor da orelha esquerda da tua primeira namorada, aquela que você deixou cair e fingiu não ver quando se cruzaram na fila da farmácia, é sempre assim, boy. Você chega nas rodas e inaugura um novo ciclo e crê junto a imagem de São Judas Tadeu que agora será diferente, que teu time será campeão como foi no passado, vai haver um acerto de contas lento com tua família, que enfim tuas almas gêmeas vão te cercar e que todos serão os irmãos que você não teve, pois além de novos em tua vida, você terá outra chance, a de ser menos escroto, um pau no cu moderado porque isso é reciproco em qualquer amizade e também virá uma mulher, aquela feito de milhões de retalhos, as partes mais nobres daquelas que você desprezou e amou e fingi nunca amar, porque todas essas mulheres são uma, e você vai amar, vai subir nas alturas e ter o deleite de pelo menos meia estação ser o que almejou para a vida, mas o tempo vai te rodear, o clima e as cores vão gastar o brilho que você conferia a cada pessoa e você vai destruir tudo, como imagens religiosas que te causam asco, tal como um inoclasta repugnante e tudo vai acabar, e tudo vai se renascer e você vai chegar a conclusão de que é o fim, mas na semana que vem vai começar tudo de novo, falar do teu pai, da tua mãe, dos jogos que você viu na tevê, daquele show do pearl jam e dos personagens do Chico Anysio, porque você é isso meu boy, uma repetição de si mesmo, uma cópia mal feita do que um dia poderia ter sido e assim você continua, dá bom dia, saí de casa e se anima de poder respirar o ar puro das seis da manhã, afinal, assim é a sua vida há mais de vinte anos.

Apenas um embaralhado de tédio e memórias embaçadas, que entre uma mágoa e um gol de empate, encontra a si mesmo — Professor de literatura e ciclista

Apenas um embaralhado de tédio e memórias embaçadas, que entre uma mágoa e um gol de empate, encontra a si mesmo — Professor de literatura e ciclista