Do meu vizinho de cima sei apenas a voz e alguns dos ruídos esparsos que faz ao longo da manhã. A quarentena e o isolamento nos levam a vivenciar os rituais e a intimidade de quem está próximo. Morando num prédio de 15 andares, com 8 apartamentos por andar, torna-se impossível não absorver a vida de quem nos cerca. Ontem mesmo depois de me irritar com a quantidade de trabalhos para fazer, a impossibilidade de sair, caminhar ou beber um trago no bar do Marcelo, fiquei na cama a olhar o vazio pela janela e dei com os gestos e…


A rua XV está vazia como nunca, e eu sou um homem sozinho te procurando em luzes que já não habitas. As calçadas resguardam sombras de vidas desavizinhadas de mim, e tão rasas; que não valem mais a pena remar. É domingo, um dia como qualquer outro. Saí a procura de almoço para preencher um vazio que já não sei qual é. Tudo está fechado logo agora que decido sair ao mundo; todos se encontram em casa celebrando este feriado de outubro, ansiando pelo sorriso da criança a desembrulhar presentes no centro da sala. …


ARCIMBOLDO. Giuseppe. Vertumnus. 1590. Óleo sobre madeira, 68 x 56 cm.

Não há muito o que falar sobre a tristeza, apenas que é passageira, cíclica, rotineira e subjetiva; mas abrindo mão de qualquer pressuposto filosófico ou psicológico, é preciso admitir que independente das motivações, ou a falta delas, a tristeza precisa ser vivida.

Longe de fazer uma ode à tristeza ou romantiza-la, nenhuma tristeza deve ser interrompida pela vontade alheia de ignora-la, e que comumente propõe anestésicos falaciosos e artifícios culturais, cujo único objetivo é apenas enganar o sentimento, sem jamais curá-lo.

No ano passado ao abordar os textos de opinião, utilizei com meus alunos o texto “Pelo direito à tristeza”…


[…]

Mas se Deus é as flores e as árvores

E os montes e sol e o luar,

Então acredito nele,

Então acredito nele a toda a hora,

E a minha vida é toda uma oração e uma missa,

E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Fernando Pessoa (sob o heterônimo de Alberto Caeiro)

A luz cai e o bairro do Rebouças não se move, como se a paisagem e seus relevos fossem modelos perfeitos para o amarelo expressionista que o pôr-do-sol dedica aquela faixa de Curitiba. Meus olhos intercalam entre a leitura e a paisagem em metamorfose…


Terminei ontem a leitura de “O teu rosto será o último”, romance de João Ricardo, autor da nova literatura portuguesa, mas não é desta nem de outras obras de lá que quero falar. Ontem também encerrou-se mais um ano letivo, mais um capítulo na busca incansável de construir o futuro através da língua portuguesa e as leituras de mundo; despedidas, um choro reprimido, sem nenhum afago de aluno ou mensagem positiva para que pudessem sopesar o que se passou. E com as notas fechadas e o conteúdo vencido, pouquíssimos se deram ao trabalho de conectar-se na chamada de vídeo, e…


Minha avó temia estrelas cadentes. Não porque algum trauma diante do insucesso a acometia, mas porque nessas noites tão inesperadas, seu pai, um homem com ar de italiano autoritário decidia destilar seus ódios e seus insucessos financeiros nas costas de seu genro, no caso meu avô, que na época era um simples João de sobrenome estranho vindo de uma família estranha de origem judaica instalada num cantão de Araucária. Minha mãe me contou esses fatos com uma imprecisão de sentimentos. Não se lamúriava pela dor de sua mãe, mas transmitia a anedota a mim e minhas irmãs como uma incógnita…


Você sempre vai fazer igual, meu boy, e sempre vai cair, levantar e crer que há um destino trágico em torno desses tropeços. Sempre vai contar as mesmas anedotas, falar do teu pai, da tua mãe, da cidade em que você pouco visita, e incrível que todos vão gostar de você, porque apesar desse rancor embebido no teu olhar de deboche, você tem um carisma estúpido que agrada a todos, e vai cativar aos poucos, falando coisas que vão além de tua idade, dos jogos que você acompanhou na televisão, das bobagens e músicas que ouvia num tempo fora do…


Saiu para a rua respirando a umidade de um fim de tarde em que a chuva ainda escurecia a paisagem. Nenhuma gota vertia do céu, nem uma brisa fria para indicar mais uma nuvem negra sobre o bairro de sua infância. Nos primeiros passos fora da calçada, sentiu-se vigoroso e jovem por viver mais que Ian Curtis, mesmo tendo completado vinte e sete anos no mês passado.

Com o cachorro atado a uma coleira puída e sem muita segurança, deslizou por ruas que agora reluziam um ar novíssimo, reformas e investimentos duradouros, metamorfoseando quase tudo que podia remeter aos dias…


Mais um campeonato acaba, e como costume, meu time amarga uma posição qualquer que não a do primeiro lugar, o digno campeão. É segundo, foi vice, uma campanha boa para os tropeços iminentes do segundo semestre pra cá. Junto a isso, também encerra-se um ciclo financeiro e administrativo, em que o presidente Eduardo Bandeira de Melo conseguiu reajustar as contas do clube, quitar dívidas, aumentar a receita, propor investimentos, um novo centro de treinamento e a promessa próxima de um estádio. Um cenário nitidamente bem distante do que conheci na minha infância: salários atrasados, contas vencidas, falta de estrutura, tanto…


Há uma fina camada d’água sobre as tábuas da ponte que atravessa o pequeno córrego. Parece escorregadio e incerto a passagem, mas mesmo assim arrisco e lentamente vou cruzando a passos lentos. Cada passada é movida por um receio de que no próximo pé cairei, por puro descuido e segurança de não ter caído até então. Chego ileso as trilhas que cortam o bosque de Portugal, que além de úmido encontra-se vazio. …

Brendon Klopass Locks

Apenas um embaralhado de tédio e memórias embaçadas, que entre uma mágoa e um gol de empate, encontra a si mesmo — Professor de literatura e ciclista

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